Cecilia
O nome Cecilia está inscrito em um anel que uso há mais de 15 anos. Ele sempre foi um bom motivo de risadas, pois, sempre que vinha um garoto chato me paquerar, eu respondia dizendo que Cecilia era o nome da minha namorada.
Cecilia hoje, no dia 15 de setembro de 2009, faz 102 anos. Na verdade, é minha avó, meu anjo de boa sorte e sabedoria. Peguei esse anel há anos, para tê-la sempre perto de mim.
Eu cresci com minha avó em casa. Como filha caçula e derradeira, ter uma avó me permitia ter alguém para mim. Lembro-me que achava o máximo poder passar creme hidrante nas pernas dela e carregar o prato dela depois do almoço. Minhas pernas se parecem com as da minha avó. Mainha tem as mesmas pernas. Entre tantas similitudes, vem o gosto de contar histórias. Voinha me trançava os cabelos – que era quase uma logomarca na alfabetização no Marista, onde estudei durante 12 anos. Enquanto trançava meus cabelos, contava história. Além de ter as mãos de plumas, Voinha me salvava das mãos pesadas da minha mãe.
Uma das lembranças que tenho do lugar em que nasci, e onde morei até os 7 anos, eram as cantorias que Voinha nos ensinava: «Os olhos de Maria Rita são pretos que nem carvão ...», «Ô pisa o milho, penerou o xerém...» Tantas recordações! Vem dela e dos meus pais este gosto pela música (dita) popular.
Muitas vezes, no terraço, já no novo apartamento, Voinha contava histórias, muitas histórias. Falava sempre muito da avó dela. Uma negra grande, bem preta, de olhos bem pretos – que chegavam a ser azulados (como os de Voinha) –, e com porte de Rainha. Parecia uma egípcia. Lembro-me da minha tia Neném falar da minha tatataravó também. Acho que vem daí minha paixão por pessoas de pela bem preta. Sempre achei minha cor sem graça, principalmente, depois deste tempo todo na Europa, onde o sol se faz raro!
Entre várias histórias, Voinha me falava que minha tataravó era bonita e valente. Certa vez, contou que Tata sempre mantinha o fogo acesso à noite, com um tridente de ferro. Só depois de crescer, fui entender que o clareamento da cor da minha família e de tantas outras não veio de flores e pedidos de casamento. Minha Tata viveu durante o período final da escravidão. Devia ter medo de ser agredida durante a noite. Isso Voinha nunca falou diretamente...
No dia 10 de maio, onde na França se comemora a Abolição da escravatura, fui convidada pelo Coletivo dos Filhos e Filhas da Deportação Africana para discursar. Durante muito tempo, fiquei pensando sobre o que eu deveria, poderia falar. Decidi contar a história da Anastácia, a negra que pagou o preço da liberdade.
Contei que Anastácia é filha de uma família real, de origem Bantu (o que me fez ganhar vários amigos Bantus, depois!), que foi estuprada assim que chegou ao Brasil. Anastácia era negra com olhos azuis, o que atiçou a cobiça dos homens da casa onde morava. Após tentativas educadas, de fazer a corte, o senhorzinho desistiu, dizendo: «Você tem que ficar comigo, pois você é minha escrava».
Anastácia ousou dizer o que (um tipo de) homens (não só) brancos não suportam ouvir de uma mulher (não só) negra:
« EU SOU LIVRE! NÃO SOU ESCRAVA DE NINGUÉM!
NASCI LIVRE E SEREI SEMPRE LIVRE! »
O preço da liberdade foi a mordaça, que caracteriza a imagem clássica de Anastácia. As mulheres da Casa Grande propuseram que ela portasse esta máscara, que era retirada apenas na hora em que ela se alimentava. Quando eu vi a foto da Anastácia em Paris, representando o COFFAD, me arrepiei e fiquei curiosa para saber que movimento era aquele, sem imaginar que, um ano e alguns meses depois, estaria com eles, participando de uma marcha e fazendo discurso. O COFFAD foi o coletivo que inspirou a Lei Taubira, que leva o nome da deputada Européia pela Guyana, Christiane Taubira.
Esta lei reconhece a escravidão e o tráfico negreiro transatlântico de seres humanos como crime contra a humanidade.
Na minha fala, discorri sobre Anastácia, sobre a importância das histórias da minha Voinha, que dizia que eu era «o machinho da casa».Voinha que, desde que saí de casa, me via sempre ao lado dela – tanto que Mainha pensava que ela estive caducando. Quando acontecia alguma coisa comigo, Voinha sempre era a primeira a saber, instintivamente. No final da minha fala, naquele 10 de maio, também lembrei da minha mãe, que desde criança me dizia «levanta para cair de novo». Parecia que ela queria me dizer: «ser mulher e negra tem seus desafios». Falei da importância do conhecimento transmitido de geração em geração, através das mulheres – das mães e avós negras –, e que me fez ser quem eu sou hoje.
Em um país que começa a ter um grande grau de mestiçagem entre negros e brancos, muitas vezes se questiona os limites entre o branco e o negro; o que é negro, o que não é. Aprendi com Voinha que eu era negra, que apesar de não ter a bela cor, os grandes olhos da minha Tatá, eu descendia dela, da história dela. Minha consciência negra começou em casa, quando percebi que Anastácia poderia ser minha Tatá: uma mulher que sempre pagou o preço da Liberdade!
Voinha, hoje, faz seus 102 anos, oficialmente. Acredito que ela deva ter mais idade do que isso, pois, na época dela, muitas certidões de nascimento estavam alteradas. Voinha começou a perder a vitalidade, a partir dos 99 anos. Hoje, não anda, não se comunica e precisa de auxilio para tudo. Cada vez que eu vou ao Brasil, me acovardo em ver minha Voinha desta maneira. Parece que quero guardar a imagem dela lúcida, fazendo cafuné e contando história. Segundo os médicos, Voinha goza de uma saúde invejável, está «apenas» envelhecendo.
Herdei dela um certo humor ácido, o gosto pela liberdade e pelas trancinhas.
Agora, todos podem saber que o meu anel se chama Cecilia, pois sempre quis levá-la comigo por onde estivesse.
« A benção, Vovó, a rainha do pitó! »
Márcia Moraes de Oliveira é Cientista Política, presidente de Afros Mundos, mestranda em Ciência Política pela Universidade Paris 1 (Panthéon-Sorbonne) e no Instituto de Altos Estudos Latino-américanos (IHEAL) pela Universidade Paris 3 (Sorbonne-Nouvelle)