Wednesday, June 15, 2011

Email a uma companheira!

Londres, 30 de maio de 2011.





Marilza-querida-amada-salve-salve!

Agora que estou um pouco mais folgada-aliviada, paro para responder teu email com calma.


Na verdade, escrevo-lhe dentro de um ônibus, voltando do EPTEX. Aliás, foi uma experiência incrível poder aprender e trocas experiências com pessoas tão engajadas, comprometidas e... simples! Esta simplicidade que eu encontro nos militantes mais antigos do PT reforça mais ainda minha visão de que o PT não é um partido como os outros e que fiz bem em me filiar. Sair da minha condição de electro livre trás ainda novas responsabilidades que vão ser assumidas com muito amadurecimento e ternura.

Sobre os assuntos menos "ternurísticos", o racismo brasileiro é um crime perfeito: não deixa suspeitos - como diria o Kabenguele: "- Conversar, dialogar, trocar informações e, sobretudo, sensibilizar são nossos melhores meios para que ele confesse aos poucos suas penas". Como negra brasileira, sinto-me feliz que no Brasil o racismo anti-negro não se torne um racismo anti-branco. Infelizmente, na Europa vejo isso e, (in)felizmente, uma andorinha so não faz verão. O teu testemunho naquela reportagem chocou/impressionou alguns amigos que viram. Aliás, foi através deles que eu descobri a matéria. Eles se chocam por ver um não-negro falar como um (militante) negro. A matéria serviu para que eu possa mostrar que no Brasil somos quilombolas, que as lutas são transversais e que "o outro" pode ser nosso amigo e, sobretudo, aliado.

Estou tentando organizar um grupo LGBT/negro. As dificuldades? Um meio negro homofóbico, um meio homosexual negrofóbico, um meio LGBT machista. Devo encontrar-me com uma transsexual negra para convencê-la a realizar este trabalho com o Centro LGBT de París que, diz a lenda, é islamofóbico. São tantas fobias, mas tantas fobias, que ainda esquecemos que, no fundo, essas pessoas, esses grupos, têm medo de si mesmos. Tenho a impressão, muitas vezes, que deveria se criar terapias de grupo para superar este medo do outro e de si mesmo.


No EPTEX pude encontrar aquilo que eu chamo de militantismo do PT brasileiro: a transversabilidade de lutas e aprendizagem da tolerância. Conversar sobre a importância do reconhecimento homoafetivo com uma camarada evangélica (que o defende igualmente, pois acredita que Deus esta em toda parte e que nenhum filho de Deus pode ser excluido de sua cidadania), nesses tempos, onde Deus(es) são utilizados para fazer guerra e aumentar o ódio contra o ódio, foi um alívio. Neste encontro também pude escutar e trocar a experiência e contar com a (muita!!!) paciência dos militantes mais antigos.


Uma das resoluções que eu propus foi colocar a luta contra o Racismo e Xenofobia nas resoluções do EPTEX. Uma outra camarada também colocou a defesa dos Direitos Humanos. Estas três palavrinhas que nos diferenciam na nossa pratica partidária.


Falando em Direito Humanos, a força com que o representante da CUT presente defendia que trabalhor deve ser defendido independente da nacionalidade, foi lindo de ser ver! Um companheiro nos contou sobre as denúncias realizadas contra a exploração dos trabalhadores latino-americanos, especialmente, bolivianos. Quanto na Europa, ja tive que escutar de partidos ditos comunistas, socialistas, enfim, de esquerda, que "não se pode resolver todos os problemas", que "não podemos receber todos".


Este encontro foi um alívio e uma possibilidade de imersão nas águas profundas da nossa militância (agora para mim) partidária.



Agora, eu entendo perfeitamente o famoso bordão: a luta continua, companheira! Somente através dessa luta e com muito amadurecimento e ternura que vamos transformar aquele outro, que é (também) explorado por esse mundo capitalista, heterosexual e branco, em nosso/a aliado/a.



Saudações companheir@s!


Marcinha


ps. Não pude resistir em publicar este email. Fica registrado meu carinho e admiração pela força e simplicidade de Marilza!

1 commentaires:

vanderlei said...

Nossa como é triste o racismo num pais como o nosso mistico de mais negros, mas a vida tem dessa coisas e la de cima tem um ser que não dorme e tudo vê e tudo sabe, amei sei blog e voltarei ok, bjs no coração e afagos na alma.
Vanderlei
http://vanderleireflexoes.blogspot.com